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Diabetes Gestacional: o que devo saber?
A gravidez traz inúmeras alterações ao estado fisiológico da mulher, uma das quais passa por um maior grau de resistência à insulina e, consequentemente, aumento dos valores médios de glicemia (açúcar presente no sangue), sobretudo a partir do 2º trimestre. Contudo, esta condição relativamente normal no período de gestação pode evoluir para a patologia habitualmente designada por Diabetes Gestacional.
Neste artigo, reunimos a informação quanto ao modo como se deteta a Diabetes Gestacional, os fatores de risco para o desenvolvimento desta patologia, as consequências que pode trazer para a saúde da mãe e do bebé, bem como os cuidados a ter em casos de diagnóstico positivo.
Diabetes na Gravidez
De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a Diabetes Gestacional corresponde a um subtipo de intolerância aos hidratos de carbono que é detetado pela primeira vez no decorrer de uma gravidez. Esta intolerância ocorre quando o pâncreas não tem a capacidade de produzir a insulina suficiente para a manutenção de níveis normais de glicose no sangue.
Com o aumento de estilos de vida sedentários, obesidade e da idade materna na gestação, a incidência de Diabetes Gestacional também tem crescido a nível mundial. Tendo em conta as implicações que pode ter para a saúde materna e fetal, quer a curto quer a longo prazo, o diagnóstico de Diabetes Gestacional é extremamente importante para prevenir as complicações que lhe estão associadas.
Como detetar a Diabetes Gestacional?
Como referido anteriormente, a Diabetes Gestacional trata-se do desenvolvimento de uma intolerância aos hidratos de carbono (açúcares) detetada, pela primeira vez, na gravidez.
O diagnóstico da Diabetes Gestacional faz-se através de análises ao sangue e pode dividir-se em 2 momentos distintos:
Glicemia na primeira visita pré-natal – 1º trimestre
Neste primeiro momento, são avaliados os valores de glicemia presentes no sangue após jejum de 8 a 12 horas.
1) quando o valor da glicemia é inferior a 92 mg/dl: a grávida deverá realizar a PTOG (Prova de Tolerância Oral à Glicose) entre as 24-28 semanas, para reavaliação da situação;
2) quando o valor da glicemia em jejum é igual ou superior a 92 mg/dl mas inferior a 126 mg/dl: diagnóstico de Diabetes Gestacional;
3) quando o valor da glicemia em jejum é igual ou superior a 125 mg/dl: deverá ser já tratada como diabetes Mellitus prévia à gravidez (podendo ou não esta já ter sido diagnosticada anteriormente).
Prova de Tolerância Oral à Glicose (PTOG): 24-28 semanas
Esta prova deve ser efetuada preferencialmente de manhã, após um jejum de 8 a 12 horas.
Recomenda-se que, nos 3 dias anteriores à realização da PTOG, se mantenha uma atividade física normal e uma dieta não restritiva em hidratos de carbono (com uma quantidade de pelo menos 150 g).
A prova passa pela ingestão de um composto de 75 gramas de glicose diluídos em 250-300 ml de água. Após esta ingestão, são realizadas 3 colheitas de sangue: uma logo no momento de ingestão do composto; outra 1 hora após a ingestão; e a terceira e última, 2 horas após a ingestão. Ao longo da prova, a grávida deve manter-se em repouso.
Será detetada a Diabetes Gestacional se pelo menos um dos valores se apresente de acordo com os seguintes resultados:
- recolha no momento de ingestão: igual ou superior a 92 mg/dl
- recolha 1 hora após a ingestão: igual ou superior a 180 mg/dl
- recolha 2 horas após a ingestão: igual ou superior a 153 mg/dl.
PTOG: a importância de realizar nas semanas de gestação recomendadas
A PTOG não deve ser realizada antes das 24 semanas, na medida em que os resultados, neste período, podem não ser suficientemente consistentes. Por outro lado, a PTOG não deve ser repetida após as 28 semanas e a sua realização após este período apenas deve ser equacionada em casos em que a gravidez não tenha sido acompanhada até essa fase gestacional.
Fatores de Risco para o Desenvolvimento da Diabetes Gestacional
Há alguns fatores de risco associados à possibilidade de desenvolvimento de Diabetes Gestacional. Diversos estudos científicos apontam a predisposição genética, determinados estilos de vida (onde incluímos o tipo de alimentação e de atividade física praticados) e ambiente fetal como elementos que podem potenciar o aparecimento desta patologia na gravidez.
Assim, os fatores de risco de maior relevância neste contexto são os que indicamos de seguida:
- excesso de peso ou obesidade;
- ocorrência de diabetes gestacional ou macrossomia (recém-nascido com peso igual ou superior a 4 kg) em gravidez anterior;
- idade da grávida superior a 35 anos;
- histórico de diabetes na família da grávida;
- hipotiroidismo;
- toma de certo tipo de medicação (como corticoides).
Quais as consequências da Diabetes Gestacional?
Grávidas com diabetes gestacional apresentam um risco acrescido no desenvolvimento de outro tipo de complicações no decurso da gravidez e no período posterior ao parto.
Complicações associadas à diabetes gestacional para a mãe
No caso da mãe, a Diabetes Gestacional pode associar-se ao risco de:
- aumento excessivo de peso;
- pré-eclâmpsia (complicações resultantes de hipertensão na gravidez);
- polihidrâmnios (produção excessiva de líquido amniótico);
- parto pré-termo;
- necessidade de parto instrumentado (recurso a ventosa/fórceps) ou cesariana;
- traumatismos no canal de parto;
- risco aumentado de desenvolvimento de diabetes no futuro.
Complicações associadas à diabetes gestacional para o feto
Quanto ao bebé, as complicações associadas podem passar por:
- fetos grandes ou macrossómicos (com peso igual ou superior a 4 kg no nascimento);
- anomalias cardíacas fetais;
- distócia de ombro (ombro anterior ou o posterior que não consegue ultrapassar o plano promonto-púbico materno e origina necessidade de manobras obstétricas adicionais, após falência da tração da cabeça fetal para libertar os ombros);
- atraso da maturação dos pulmões (com consequentes dificuldades respiratórias no pós-parto);
- complicações metabólicas no recém-nascido, tais como hipoglicemia, icterícia ou hipocalcemia;
- risco aumentado de obesidade e diabetes no futuro.
Por tudo isto, é extremamente relevante que se faça o diagnóstico da Diabetes Gestacional, bem como o posterior controlo dos níveis de glicemia ao longo de toda a gravidez, para prevenir todos os riscos e complicações associados.
Cuidados a ter após diagnóstico de Diabetes Gestacional: plano de controlo
Após um diagnóstico de Diabetes Gestacional, há uma série de cuidados que a grávida deve ter em conta, de modo a conseguir controlar os níveis de glicemia e as consequências negativas referidas anteriormente. Assim, um possível plano de controlo/tratamento da Diabetes Gestacional passa pelos passos que vamos apresentar de seguida.
1) Vigilância da Glicemia Capilar
Esta vigilância é feita pela própria grávida e consiste na avaliação diária da glicemia através de punção capilar (por picada no dedo) até ao final da gravidez.
Normalmente são indicadas 4 avaliações diárias: a primeira ainda em jejum e as outras três 1 hora após o início das 3 refeições principais (pequeno-almoço, almoço e jantar).
Em caso de grávidas sob tratamento farmacológico, poderá haver necessidade de outras determinações dos valores de glicemia, de acordo com o plano terapêutico definido.
Além desta autovigilância da glicemia, também há outras formas de se fazer um controlo metabólico, como a avaliação do crescimento fetal através dos exames ecográficos, a quantidade do líquido amniótico e, em alguns casos, avaliação da hemoglobina glicada - HbA1c (dado laboratorial que traduz a média de glicémias das últimas semanas).
2) Plano nutricional adequado
A definição de um plano alimentar equilibrado é a base fundamental do tratamento e controlo da diabetes gestacional. Este plano deve ser personalizado, partindo dos hábitos alimentares, dos antecedentes clínicos da grávida, dos seus gostos e cultura. Deve, por isso, ser definido por um nutricionista/dietista especializado em conjunto com cada gestante.
Recomendações nutricionais gerais na gravidez da gravida diabética
Há algumas recomendações gerais a ter em conta, tais como:
- distribuição da ingestão de hidratos de carbono/valor calórico total por várias refeições ao longo do dia, procurando não ficar mais de 3 horas sem comer (3 refeições principais, 3 refeições intermédias – 1 a meio da manhã e 1 a 2 lanches – e 1 pequena ceia antes de deitar. A ceia deve conter hidratos de carbono complexos, para evitar a hipoglicemia noturna);
- consumo de pão de mistura, integral ou de sementes sempre fora das refeições principais (evitando o consumo de pão branco, pão de forma ou pão de leite);
- consumo de 3 a 4 peças de fruta por dia*, preferencialmente fora das refeições principais, acompanhadas por iogurte natural ou magro sem açúcar ou ½ dúzia de frutos secos;
* 1 peça de fruta corresponde a 1 pêra média, 1 maçã pequena, 1 laranja, 1 pêssego, ½ dióspiro, ½ banana, 10 bagos de uva, 2 tangerinas pequenas, 2 kiwis ou 2 ameixas.
- consumo diário de cerca de 2 litros de água ou chá sem açúcar;
- início das refeições principais com sopa de legumes (que não deve incluir batata, arroz, massa, leguminosas, carne, peixe e caldos industrializados);
- refeições principais que variem na sua fonte de proteína e que deem preferência aos cozidos/grelhados (evitando fritos);
- alimentos a evitar: alimentos processados/fast-food, doces, molhos, natas, papas, empadão, lasanha, feijoada, mandioca, gelados e gelatinas com açúcar, bem como os adoçantes.
Salvo contraindicação médica, a grávida deve também manter uma atividade física regular, como, por exemplo, 30 minutos de caminhada diária.
Terapêutica farmacológica na Diabetes na Gravidez
Sempre que o plano nutricional se revela insuficiente para o controlo dos níveis de glicemia, pode ser necessário iniciar um tratamento com recurso a administração de determinados fármacos (como a insulina ou substância análogas).
E após a gravidez?
Como visto, um controlo cuidado dos valores de glicemia ao longo de toda a gravidez é de extrema importância para evitar complicações no parto e na saúde futura da mãe e do bebé. Desse modo, quer na gravidez, quer no momento do parto, devem ser seguidas todas as orientações adequadas ao caso de grávida.
Após o momento do parto, os níveis de glicemia da mãe e do bebé são avaliados e, por norma, caso estes se apresentem dentro dos valores normais, a vigilância e eventual medicação que a grávida esteja a fazer pode ser suspensa.
De qualquer modo, as mulheres com diagnóstico de Diabetes Gestacional deverão realizar novamente a PTOG 6 a 8 semanas após o parto. Esta avaliação é efetuada de forma a controlar os valores de glicemia para determinar se estes voltaram aos valores normais, o que na grande maioria dos casos acontece.
Independentemente da normalização do quadro de Diabetes, na medida em que grávidas que tenham desenvolvido Diabetes Gestacional têm uma probabilidade acrescida de voltar a ter esta patologia numa gravidez subsequente ou de se tornarem diabéticas no futuro, é de todo recomendável que se mantenham alerta. Nestes casos, deverão sempre manter hábitos de vida equilibrados e saudáveis, assim como a realizar uma avaliação da glicemia numa fase pré-concecional, no planeamento de uma futura gravidez.
Na SYNLAB, poderá realizar todas as análises recomendadas durante a gravidez, incluindo a Prova de Tolerância Oral à Glicose com o rigor e a comodidade que se exigem neste momento tão aguardado no período da gravidez. Informe-se junto das nossas equipas e faça com que a realização da PTGO não seja um momento menos agradável da sua gravidez.
Fontes de informação:
https://www.spedm.pt/pt/glandulas-e-doencas-endocrinas/diabetes-gestacional
https://www.spmi.pt/wp-content/uploads/i023590.pdf
http://www.revportdiabetes.com/wp-content/uploads/2022/06/RPD_Junho_2022_Perspectiva_47_53.pdf
https://www.chts.min-saude.pt/mais-saude/descomplicar-a-gravidez/diabetes-gestacional/
https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/115530/2/285465.pdf
https://hff.min-saude.pt/wp-content/uploads/ORIENT1-1.pdf
https://normas.dgs.min-saude.pt/2011/01/14/diagnostico-e-classificacao-da-diabetes-mellitus/
DISTÓCIA DE OMBROS Uma Emergência Obstétrica- ACTA MÉDICA PORTUGUESA, 2011 https://actamedicaportuguesa.com