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06 Aug 2026

Hepatite B: a Importância do Diagnóstico e da Prevenção

A hepatite B é uma doença viral que representa um dos principais desafios globais de saúde pública. Estima-se que aproximadamente 296 milhões de pessoas vivam com infeção crónica pelo vírus da hepatite B (VHB) em todo o mundo, provocando mais de 820 mil mortes anuais devido a complicações como cirrose hepática e carcinoma hepatocelular​.

Neste artigo reunimos um conjunto de informações úteis, com o intuito de potenciar o seu conhecimento sobre o vírus de hepatite B.

 

O que é o vírus da hepatite B? 

O VHB é um vírus de DNA, pertencente à família Hepadnaviridae, distinguido por uma alta afinidade pelo fígado. Este vírus pode causar inflamação hepática, que pode ser autolimitada (hepatite aguda) ou evoluir para uma condição persistente (hepatite crónica). A principal característica do VHB é a sua capacidade de integrar o DNA viral no genoma das células do fígado, tornando-se um desafio erradicá-lo completamente.

Quando a infeção evolui para estágios mais avançados, pode aumentar significativamente o risco de desenvolver doenças hepáticas graves, como a cirrose e o cancro no fígado.

O período de incubação do VHB pode variar entre 30 e 150 dias, após exposição ao vírus.

 

Dados Epidemiológicos Mundiais sobre a Hepatite B

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2022, a hepatite B crónica afetou 254 milhões de pessoas, resultando em cerca de 1,1 milhão de mortes por cirrose hepática e carcinoma hepatocelular, a nível global. De acordo com esta instituição, todos os dias, cerca de 3,5 mil pessoas morrem em todo o mundo devido a infeções por Hepatite B e Hepatite C. Em 2022, ocorreram 1.2 milhões de novas infeções por Hepatite B. Analisando apenas os dados europeus, as estimativas mais recentes apontam para que 3,6 milhões de pes­soas vivam com Hepatite B crónica.

De acordo com os dados da OMS, metade da carga das infeções crónicas por Hepatite B e C ocorre em pessoas entre os 30 e os 54 anos de idade, 2% dos casos afetam crianças com menos de 18 anos de idade. Os homens representam 58% de todos os casos.

Os dados relevados por esta instituição indicam também que no final de 2022, em todas as regiões, apenas 13% das pessoas que vivem com infeção crónica por Hepatite B foram diagnosticadas e aproximadamente 3% haviam recebido terapia antiviral.

 

Dados de Hepatite B em Portugal 

Dados reportados de Portugal  referentes a estimativas de pessoas a viver com infeção crónica pelo VHB de 2023 (diagnosticadas e não diagnosticados), indicam 41.527 pessoas a viver com HVB crónico por 100.000 habitantes.

Em estudo comparativo, Portugal apresenta-se numa posição favorável face à média europeia, com 1,5 novos casos confirmados de Hepatite B por 100.000 habitantes, em 2022.

Relativamente à Hepatite B aguda, Portugal apresentou um valor de 0,3 novos casos de hepatite B aguda por 100.000 habitantes.

 

Diferenças entre género feminino e masculino 

Para todas as hepatites virais de notificação obrigatória, observa-se, ao longo dos anos, uma tendência consistente de maior proporção de casos confirmados no sexo masculino. Em 2023, os homens representaram 67% dos casos de hepatite B. Destaca-se, contudo, que a qualidade dos dados sobre a forma de apresentação da hepatite (aguda ou crónica) e sobre a provável via de transmissão é insuficiente devido a inconsistências e imprecisões nas informações notificadas.

De acordo com as notificações oficiais em Portugal, o número de casos confirmados em Portugal de Hepatite B no ano de 2023 foi de 180, sendo 120 casos do sexo masculino e 60 do sexo feminino. No que diz respeito à taxa de notificação por 100.000 habitantes, esta é superior nos homens 2,4 comparado com 1,1 nas mulheres, sendo a taxa total de 1,7.

 

 

Como a Hepatite B é Transmitida?

O vírus da Hepatite B pode permanecer ativo fora do corpo humano por aproximadamente 7 dias. No organismo, é encontrado no sangue e em certas secreções corporais, como sémen, secreções vaginais e saliva.

A transmissão do VHB ocorre por diversas vias, sendo a via sexual a forma de transmissão mais comum.

 

Vias de transmissão de VHB 

  • Sexual: O contacto desprotegido vaginal, anal e oral é uma das formas mais comuns, particularmente em adultos.
  • Vertical (de mãe para filho) ou perinatal: De mãe para filho, geralmente durante o parto, sendo esta a principal forma de transmissão em regiões de alta endemicidade. A transmissão pode ocorrer durante a gravidez ou o parto ou imediatamente após, sendo que a cesariana não impede a passagem do vírus. Em cerca de 90% dos infetados nestes casos desenvolvem hepatite crónica.
  • Via parentérica: O vírus pode ser transmitido através da partilha de agulhas ou seringas contaminadas, em procedimentos como tatuagens, acupuntura ou piercings, quando são utilizados materiais não esterilizados. Também pode ocorrer a transmissão por meio da partilha de utensílios pessoais, como escovas de dentes, lâminas de barbear, corta-unhas ou outros itens que possam conter sangue contaminado.
  • Transfusões sanguíneas e transplantes de órgãos: Embora raras, estas vias também podem ser fontes de transmissão.

 

Embora o vírus da Hepatite B tenha sido detetado na saliva, a transmissão através do beijo é muito improvável, a menos que haja feridas na boca que facilitem a passagem do vírus.

 

Quais os fatores de risco da infeção? 

O risco de infeção pelo vírus da Hepatite B é aumentado por diversos fatores, nomeadamente através da via sexual. Ter múltiplos parceiros sexuais aumenta a probabilidade de contacto com indivíduos infetados, o que eleva o risco de transmissão. Além disso, a existência de relações sexuais desprotegidas ou mal protegidas, como por exemplo o uso incorreto de preservativos, facilita a transmissão desta infeção que é sexualmente transmissível.

A coinfecção por VIH, HBV e HCV é um grande desafio para a saúde pública global devido à semelhança nos modos de transmissão (via sanguínea, práticas sexuais e uso de equipamentos de injeção compartilhados). De acordo com um artigo de revisão, a prevalência combinada de VIH e Hepatite B foi de 9% (dados de 5 estudos com 5.641 participantes).

 

Quais os principais sintomas da infeção por VHB? 

Na fase inicial (fase aguda), muitos infetados permanecem assintomáticos. Quando presentes, os sintomas podem incluir:

  • Icterícia (coloração amarelada da pele e olhos);
  • Urina escura e fezes claras;
  • Fadiga, náuseas, vómitos e perda de apetite;
  • Dor abdominal;
  • Febre.

 

A ausência de sintomas não exclui a progressão da doença, que pode evoluir silenciosamente para complicações graves como insuficiência hepática, cirrose e cancro do fígado. Podem surgir também complicações extra-hepáticas, como poliarterite nodosa (inflamação que danifica artérias) e doenças glomerulares (doença renal).

 

Como é feito o diagnóstico da hepatite B? 

O diagnóstico da Hepatite B é realizado através de exames ao sangue (testes serológicos) que têm como objetivo detetar o antigénio e os anticorpos específicos do vírus da Hepatite B, bem como identificar a presença do próprio vírus. Assim sendo, o diagnóstico é por deteção do antigénio de superfície (AgHBs) e anticorpos específicos (anti-HBs e anti-HBc).

O vírus da Hepatite B pode ser detetado entre 1 e 9 semanas após o contacto e permanece no organismo durante períodos que podem variar de acordo com a evolução da infeção. Nos casos de infeção crónica, são efetuados exames adicionais, como a análise da carga viral e a avaliação hepática de forma a ajudar a determinar a gravidade da doença​.

Portugal tem registado um aumento no número de testes de diagnóstico para Hepatite B, refletindo um esforço crescente para identificar precocemente casos de infeção e implementar medidas preventivas e terapêuticas.

 

Prevenção de infeção por VHB: Vacinação e Educação 

A vacina contra a Hepatite B é a medida preventiva mais eficaz, com taxas de eficácia que podem ser superiores a 95% (ou mesmo 100%) quando o esquema vacinal de três doses é cumprido corretamente. É importante notar que fatores genéticos, a obesidade, o tabagismo, doenças que afetam o sistema imunológico e doenças crónicas podem influenciar a resposta imunológica à vacina. Apesar disso, a vacinação continua a ser a medida preventiva mais eficaz contra a Hepatite B, contribuindo significativamente para a redução da incidência e das complicações associadas à doença.

Em Portugal, a vacina está integrada no Programa Nacional de Vacinação desde 1995. A administração da vacina é efetuada em três doses: a primeira logo após o nascimento, ainda na maternidade ou hospital; a segunda aos 2 meses de idade; e a terceira aos 6 meses de idade.

Conforme indicado pelo Centers for Disease Prevention and Control (CDC), a vacinação contra a Hepatite B está disponível para todas as faixas etárias. É recomendada para todas as pessoas com menos de 19 anos que ainda não tenham sido vacinadas. Além disso, adultos entre 19 e 59 anos, bem como aqueles com 60 anos ou mais que apresentem um risco aumentado de contrair o VHB, devem receber a vacina. Para adultos com 60 anos ou mais sem fatores de risco, a vacinação também pode ser considerada, dependendo da avaliação médica.

 

Medidas adicionais para prevenção de infeção por VHB

Além disso, é fundamental para a prevenção de ser contaminado por este vírus:

  • Utilizar corretamente preservativos em todas as relações sexuais;
  • Não partilhar seringas ou objetos pessoais cortantes;
  • Garantir que equipamentos utilizados em procedimentos como tatuagens e piercings, entre outros, sejam esterilizados.

 

Sendo uma doença evitável, os indivíduos infetados pelo VHB devem adotar várias medidas para reduzir o risco de transmissão da infeção. Entre as recomendações, além das já referidas, destacam-se: informar os parceiros sexuais sobre a possível infeção, não partilhar agulhas, seringas, lâminas, escovas de dentes ou outros utensílios pessoais que possam estar contaminados com sangue. Além disso, é fundamental proteger cortes ou feridas com pensos para evitar o contacto de outros indivíduos com o vírus.

Os parceiros sexuais, familiares e outros indivíduos que partilhem o mesmo ambiente doméstico devem realizar o teste para a Hepatite B. Aqueles que se encontram em risco devem ser vacinados para garantir maior proteção contra a infeção.

O rastreio e a vacinação são medidas cruciais para reduzir a transmissão do vírus, especialmente em grupos de maior risco, como profissionais de saúde e indivíduos expostos a fatores de transmissão.

 

Profilaxia pós-exposição (PEP) a VHB 

A profilaxia pós-exposição (PEP) é uma intervenção crítica para prevenir a infeção pelo vírus da Hepatite B (VHB) após uma possível exposição. Tradicionalmente, a PEP inclui a administração de imunoglobulina contra Hepatite B (HBIG) e a vacinação contra o VHB.

De acordo alguns autores, a eficácia da PEP é influenciada por vários fatores, incluindo o tempo decorrido desde a exposição, o estado imunológico prévio do indivíduo e a natureza da exposição. A administração de HBIG em conjunto com a vacina contra o VHB, preferencialmente dentro de 24 horas após a exposição, oferece uma proteção significativa contra a infeção. No entanto, mesmo quando a PEP é iniciada, até uma semana após a exposição, pode proporcionar benefícios consideráveis.

Além disso, é importante que o estado imunológico prévio do indivíduo. Pessoas previamente vacinadas com resposta imunológica adequada podem não necessitar de HBIG, enquanto indivíduos não vacinados ou com resposta vacinal desconhecida devem receber tanto HBIG quanto a vacina. De acordo com diversos estudos, há, portanto, necessidade de ter em conta fatores como a gravidade da exposição e a presença de condições médicas subjacentes quando o médico decide o regime de profilaxia pós-exposição mais apropriado.

Em resumo, a PEP para o VHB é mais eficaz quando iniciada precocemente, idealmente dentro de 24 horas após a exposição, e deve ser adaptada ao estado imunológico do indivíduo e às características específicas da exposição. A combinação de HBIG e vacinação continua a ser a abordagem padrão para indivíduos não imunizados previamente.

 

A hepatite B tem tratamento? 

A maioria dos indivíduos imunocompetentes recupera da infeção aguda por HBV, produzindo anticorpos contra o vírus. Aproximadamente 95% dos adultos saudáveis infetados recupera em algumas semanas, podendo este processo estender-se de controlo da infeção pelo sistema imunitário até seis meses. Portanto, na maioria dos casos, a Hepatite B na fase aguda não requer tratamento específico, sendo nesta fase recomendados cuidados de hidratação e repouso para ajudar na recuperação. Apenas em casos específicos podem ser rescritos medicamentos (antivirais).

Contudo, em cerca de 5% dos casos, a infeção evolui para uma forma crónica. E quando a infeção evolui para a cronicidade, há necessidade de tratamento específico. Embora ainda não exista uma cura definitiva, as terapias antivirais disponíveis são altamente eficazes na redução da replicação viral e no controle da progressão da doença. A introdução de novos tratamentos, incluindo terapias direcionadas ao DNA viral circular (cccDNA), promete avanços significativos.

Em suma, embora não haja cura para a infeção, o tratamento tem a capacidade de reduzir a lesão hepática, prevenindo complicações graves a longo prazo, como a cirrose e o cancro de fígado.

 

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