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Hepatite C: tudo o que deve saber sobre o vírus HCV
As hepatites virais são doenças inflamatórias do fígado causadas por diferentes tipos de vírus. Os principais tipos de hepatite são A, B, C, D e E, com destaque para os tipos B e C devido à sua potencial evolução para formas crónicas, que podem levar à cirrose e ao cancro hepático. Entre essas, a hepatite C é particularmente preocupante, pois é uma das principais causas de doença hepática crónica, cirrose e cancro hepático em várias partes do mundo. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se que, a nível mundial, cerca de 58 milhões de pessoas vivam com infeção crónica pelo HCV. Neste artigo iremos abordar tudo o que deve saber sobre este importante vírus que provoca doença hepática!
O vírus HCV: Hepatite C
O vírus da hepatite C é um vírus RNA, da família Flaviviridae, e que provoca uma inflamação no fígado, resultando na hepatite C. O vírus da hepatite C (HCV) pode ser transmitido principalmente por contacto com sangue contaminado.
Embora alguns indivíduos apresentem uma infeção aguda e consigam recuperar espontaneamente, a maioria desenvolve hepatite crónica. Em cerca de 20% dos casos de hepatite C crónica, a doença pode evoluir para cirrose hepática ou cancro de fígado, representando uma ameaça significativa à saúde a longo prazo.
Quais os dados estatísticos mundiais conhecemos sobre a Hepatite C?
A hepatite C é uma preocupação global em termos de saúde pública. De acordo com a OMS:
- Aproximadamente 58 milhões de pessoas vivem com a infeção crónica por HCV no mundo.
- A hepatite C causa aproximadamente 290.000 mortes anuais, principalmente devido a complicações como cirrose e cancro hepático.
- A prevalência da infeção é mais alta em áreas com menos acesso a cuidados de saúde adequados, como na Ásia Central, África Subsariana e algumas partes da América Latina.
- Em países desenvolvidos, como os Estados Unidos, estima-se que cerca de 2,4 milhões de pessoas vivam com a infeção crónica, embora muitas não saibam que estão infetadas devido à ausência de sintomas evidentes.
Quanto portugueses estão infetados com o vírus da Hepatite C?
Segundo a Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, estima-se que cerca de 1% da população adulta portuguesa esteja infetada pelo HCV. Segundo o relatório do Programa Nacional para as Hepatites Virais (PNHV) da DGS de 2024, em 2023 Portugal reportou um número de 41.527 pessoas a viver com HVB crónico por cada 100.000 habitantes.
Em 2022 foram prescritos 202.778 testes para rastrear a hepatite C, representando um aumento de 17% relativamente a 2021. EM 2023, o número de testes também foi superior ao ano anterior e, também o número de tratamentos para hepatite C aumentaram relativamente a 2022.
Embora a prevalência da doença tenha diminuído nos últimos anos, devido a programas de deteção precoce e ao avanço das terapêuticas antivirais, a hepatite C continua a ser uma das principais causas de cirrose hepática e cancro do fígado no país.
Hepatite C e Diferença de Gênero: Homens vs. Mulheres
A infeção pelo HCV afeta tanto homens quanto mulheres, mas há algumas diferenças importantes em relação à progressão da doença e à resposta ao tratamento:
Homens e HCV
Geralmente os homens têm maior risco de desenvolver formas mais graves de hepatite C, como cirrose e carcinoma hepatocelular (cancro de fígado). Eles também tendem a ser mais propensos a desenvolver a infeção em idades mais jovens.
Mulheres e HCV
O género feminino tem uma resposta imunológica geralmente mais eficaz, o que pode levar a uma taxa de erradicação do vírus mais alta com o tratamento. No entanto, as mulheres podem ser mais suscetíveis a doenças autoimunes associadas ao HCV.
Além desta informação é relevante sabermos que, durante a gravidez, a hepatite C não é facilmente transmitida de mãe para filho, mas o risco de transmissão vertical existe, especialmente se a mulher tiver infeção crónica.
Como posso ser infetado com HCV?
A transmissão da hepatite C é feita principalmente por via sanguínea, através do contacto com sangue infetado a partir de objetos cortantes e perfurantes. Mesmo uma pequena quantidade de sangue contaminado é suficiente para que a infeção ocorra, podendo ser transmitido por cortes ou feridas.
A transmissão por via sexual é rara, mas pode ocorrer se houver lesões das mucosas genitais.
É importante ter em conta que o vírus não se propaga por convívio social, nomeadamente pela partilha de loiça e outros objetos. Por fim, apesar de já ter sido detetada a presença do vírus na saliva, a transmissão através do beijo é pouco provável a menos que existam feridas na boca.
Transmissão de mãe para filho
A transmissão da hepatite C de mãe para filho, também conhecida como transmissão vertical, é possível, mas considerada relativamente rara. Ainda não há consenso sobre se a infeção ocorre durante a gestação ou no período do parto. Contudo, a maioria dos autores indica que o risco de transmissão para o bebé ocorre principalmente durante o parto, quando há contacto com sangue materno infetado. Estima-se que a taxa de transmissão vertical da hepatite C seja de cerca de 5% a 7%, com variação dependendo de fatores como a carga viral da mãe e a presença de coinfecções, como o VIH. Se a mãe tiver uma carga viral elevada ou se houver complicações no parto, o risco de transmissão pode ser maior.
A maioria dos médicos considera que a amamentação é segura, desde que não haja feridas nos mamilos da mãe nem lesões na boca da criança, pois a transmissão só seria provável se ambas as situações acontecessem simultaneamente.
Qual é o período de incubação do vírus da Hepatite C?
O período de incubação da hepatite C, que é o intervalo entre a exposição ao vírus e o aparecimento dos primeiros sintomas, varia de 2 semanas a 6 meses, com uma média de cerca de 7 a 8 semanas. Como já referimos anteriormente, durante esse período e após o mesmo, muitas pessoas não apresentam sintomas, o que torna difícil identificar a infeção precocemente. Além disso, o facto de muitos infetados não apresentarem sintomas contribui para a taxa elevada de subnotificação e para a propagação silenciosa do HCV, já que muitas pessoas não sabem que estão infetadas até que surjam complicações mais graves, como cirrose ou cancro hepático.
Sintomas da Hepatite C
A hepatite C é uma infeção viral que afeta o fígado e, frequentemente, os seus sintomas iniciais são leves ou ausentes, especialmente nos primeiros estadios da infeção. Ou seja, muitos indivíduos com hepatite C não apresentam sintomas na fase inicial de infeção e isso faz com que muitas pessoas não percebam que estão infetadas até que a doença tenha avançado para uma forma crónica ou grave.
Quando há aparecimento de sintomas estes podem variar de pessoa para pessoa e podem ser confundidos com outras condições. Isto porque os sintomas da hepatite C não são específicos.
Partilharemos consigo uma explicação detalhada dos sintomas que podem ser observados nos diferentes estadios da doença:
Sintomas Fase Aguada (fase inicial após infeção)
Apenas entre 25% a 30% dos indivíduos infetados com o vírus da hepatite C apresentam sintomas na fase aguda da infeção.
Após a exposição ao vírus, os sintomas podem-se manifestar entre 2 semanas e 6 meses, mas muitos indivíduos não apresentam sinais. Quando presentes, os sintomas podem incluir:
- Fadiga intensa: Um dos sintomas mais comuns, a fadiga pode ser debilitante, fazendo com que a pessoa se sinta exausta e sem energia, mesmo após o descanso.
- Febre: Pode ocorrer, geralmente de forma baixa a moderada, e ser acompanhada de calafrios.
- Dor nas articulações e músculos: O desconforto nas articulações (artralgia) e músculos (mialgia) é comum e pode dificultar os movimentos.
- Icterícia: A pele e os olhos podem ficar amarelados devido à acumulação de bilirrubina no corpo, um indicativo de que o fígado não está a funcionar adequadamente.
- Náuseas e vómitos: Sensação de enjoo e vómitos podem ocorrer, geralmente associados à dificuldade digestiva provocada pela inflamação do fígado.
- Dor abdominal: Uma sensação de dor ou desconforto no lado superior direito do abdómen (onde o fígado está localizado), que se pode intensificar com o aumento da inflamação hepática.
- Perda de apetite: O paciente pode sentir dificuldade para comer devido à sensação de náusea constante e falta de desejo por alimentos.
Sintomas Crónicos (longo prazo) de hepatite
Muitas pessoas com hepatite C crónica podem viver anos ou até décadas sem apresentar sintomas graves.
Quando a infeção por vírus da hepatite C evolui para uma forma crónica, os sintomas podem ser menos evidentes de que os apresentados pelos infetados sintomáticos, mas a doença continua a danificar gradualmente o fígado.
No entanto, mesmo na ausência de sintomas, com o passar do tempo a infeção pode levar a complicações como a cirrose e o cancro hepático, o que pode fazer com que apareçam sintomas mais severos, tais como:
- Icterícia persistente: A coloração amarelada da pele e olhos pode-se intensificar à medida que o dano hepático progride.
- Edema abdominal (ascite): A acumulação de fluido no abdómen devido à insuficiência hepática pode causar distensão abdominal (“inchaço” no abdómen).
- Perda de peso inexplicada: À medida que a função hepática piora, pode ocorrer perda de peso involuntária devido a uma digestão ineficiente e ao aumento da dificuldade do organismo em processar nutrientes.
- Confusão mental e alterações cognitivas (encefalopatia hepática): O fígado danificado pode não ser capaz de remover toxinas do corpo, o que pode afetar o cérebro e resultar em confusão, esquecimentos e, em casos graves, em alterações do nível de consciência.
- Hemorragias e hematomas: O fígado comprometido perde a capacidade de produzir proteínas essenciais para a coagulação do sangue, o que pode levar a hemorragias espontâneas ou aparecimento muito fácil de hematomas.
- Dor no fígado: Sensação de pressão ou dor contínua no lado direito superior do abdómen devido à inflamação crónica do fígado.
Complicações graves associadas à hepatite C
Se a infeção crónica evoluir para complicações como cirrose hepática ou cancro hepático, o doente irá apresentar alguns sinais e sintomas característicos.
Cancro hepático (carcinoma hepatocelular)
Nos doentes com cancro hepático é comum surgirem sintomas como dor abdominal intensa, perda de peso acentuada, icterícia severa e ascite podem indicar que o cancro hepático se desenvolveu.
Cirrose hepática
A destruição das células do fígado pode resultar em complicações como hemorragia digestiva, falência hepática e aumento do risco de infeções graves.
É importante observar que a hepatite C pode ser assintomática por muitos anos, tornando-se um "assassino silencioso". A deteção precoce da infeção, por meio de análises ao sangue, é fundamental para iniciar o tratamento antes que o fígado sofra danos irreversíveis.
É possível prevenir a infeção por vírus da hepatite C?
A prevenção da hepatite C está principalmente relacionada à redução do risco de exposição ao vírus, uma vez que ele é transmitido principalmente por contacto com sangue infetado. As principais medidas preventivas incluem o uso de agulhas e seringas descartáveis de forma segura, especialmente na prestação de cuidados de saúde e na administração de drogas ilícitas injetáveis por parte dos indivíduos consumidores deste tipo de substâncias.
A prática de relações sexuais desprotegidas representa igualmente um risco acrescido de infeção, mesmo que a transmissão por esta via seja mais rara. Portanto, é possível reduzir o risco de transmissão sexual através de uma prática de sexo seguro, que inclui o uso de preservativos de forma correta e em todas as relações sexuais.
A importância do rastreio HCV
A triagem e o rastreio de dadores de sangue também são fundamentais para prevenir a transmissão através de transfusões. Além disso, em instituições de saúde, a adoção de práticas rigorosas de esterilização de equipamentos e a defesa dos profissionais de saúde com o uso de equipamentos de proteção individual ajudam a reduzir o risco de infeção.
Em relação à transmissão vertical, o acompanhamento médico durante a gravidez e o parto pode minimizar os riscos, e as mães com hepatite C devem ser monitorizadas atentamente para obterem orientações adequadas.
Embora ainda não exista uma vacina contra a hepatite C, as estratégias de prevenção são eficazes e concentram-se em evitar a exposição ao vírus e na deteção precoce dos indivíduos infetados de forma a iniciar o tratamento e quebrar a cadeia de transmissão.
Como é efetuado o diagnóstico da Hepatite C?
O diagnóstico da hepatite C é confirmado por meio de análises sanguíneas que detetam a presença do vírus e a resposta imunológica do organismo.
O exame inicial é o teste de anticorpos anti-HCV. Se positivo, um segundo teste é feito para verificar a carga viral e o genótipo do vírus, o que ajudará a definir o tratamento.
Além das análises ao sangue, podem ser solicitados exames de imagem, como ecografia ou ressonância magnética, para avaliar a condição do fígado.
Tratamento HBV
Algumas características importantes do tratamento incluem:
- Medicamentos de ação direta (DAAs): São eficazes e bem tolerados. Exemplos incluem sofosbuvir, ledipasvir e velpatasvir.
- Interferon: No passado, o tratamento com interferon era comum, mas atualmente é menos utilizado devido aos efeitos colaterais significativos.
- Vigilância: Durante o tratamento, a carga viral é monitorizada para garantir que o vírus foi erradicado. Em alguns casos, os pacientes podem precisar de tratamento contínuo, especialmente aqueles com formas crónicas ou complicações associadas, como cirrose.
- Transplante hepático: Em casos mais graves, pode ser necessária a realização de um transplante hepático.
Em conclusão, a hepatite C é uma infeção viral que pode levar a sérias complicações se não for tratada. A boa notícia é que, a introdução de tratamentos disponíveis atualmente, como os antivirais de ação direta (AAD), têm permitido a cura de muitos pacientes, reduzindo assim a progressão da doença e as complicações associadas. No entanto, ainda existem desafios no diagnóstico precoce e no tratamento de todos os infetados, especialmente nas populações mais vulneráveis, como os utilizadores de substâncias injetáveis. E, como é obvio, a consciencialização, o diagnóstico precoce e o tratamento adequado são chave para prevenir a progressão da doença e reduzir a mortalidade associada à hepatite C.
A DGS, em conjunto com outras entidades de saúde, continua a trabalhar na implementação de estratégias de rastreio e tratamento, com o objetivo de erradicar a hepatite C em Portugal até 2030, de acordo com os compromissos globais da Organização Mundial da Saúde (OMS). Para tal, é fundamental que os indivíduos, especialmente os que apresentam maior risco, realizem testes de rastreio para detetar a infeção precocemente. A SYNLAB continuará a contribuir para que esta deteção precoce seja efetuada ao maior número de indivíduos. Conte connosco!